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15/06/2026

O Brasil em 2026: Neutralidade, Paz e o Retorno ao Centro

Há uma frase atribuída ao estadista britânico Edmund Burke que, independentemente de sua autoria exata, nunca perdeu atualidade: “Para que o mal triunfe, basta que os homens de bem não façam nada.” Em 2026, essa máxima nos interpela de forma particularmente aguda.

O mundo atravessa um daqueles momentos raros em que a reconfiguração da ordem internacional ocorre não de forma gradual, mas em saltos — e nem sempre controlados. Conflitos militares ativos no coração da Europa e no Oriente Médio, tensões geopolíticas entre as grandes potências, o avanço de uma nova direita global em eleições de países que vão dos Estados Unidos à Argentina, passando por boa parte da Europa, e um Brasil às vésperas de mais um ciclo eleitoral decisivo.

Nesse contexto, a pergunta que se impõe não é apenas para onde o mundo caminha, mas onde o Brasil quer estar nessa travessia.

Seria ingenuidade ou desonestidade intelectual tratar a ascensão de governos e forças políticas de centro-direita e direita ao redor do mundo como simples acidente ou produto exclusivo da desinformação. Trata-se de uma resposta — nem sempre bem articulada, nem sempre isenta de excessos — a décadas de acúmulo de frustrações: Estados que cresceram sem entregar serviços, identitarismos que fragmentaram o tecido social, promessas redistributivas que ignoraram a criação de riqueza, e uma certa arrogância das bem educadas elites progressistas woke que perderam a capacidade de ouvir a maioria silenciosa.

Os eleitores, em sua sabedoria prática, frequentemente elegem governos não porque concordam com todo o seu programa, mas porque querem mandar uma mensagem: chega. Chega de incompetência. Chega de ideologia que não conversa com a realidade. Chega de um Estado que regula tudo e entrega pouco.

Reconhecer esse fenômeno não significa endossá-lo em seus aspectos mais radicais. Muito pelo contrário.

A história nos ensina, com severidade, que todo movimento que começa como reação legítima pode se transformar em seu próprio problema quando perde o senso de medida. A direita que produz resultados — econômicos, institucionais, sociais — é aquela que governa com pragmatismo, respeita as instituições e entende que a democracia não é um obstáculo, mas o único ambiente em que o desenvolvimento sustentável é possível.

A direita que destrói é aquela que confunde autoridade com autoritarismo, que instrumentaliza o ressentimento popular para concentrar poder, que trata adversários como inimigos e substitui o debate público pela violência simbólica — ou real.

O Brasil conhece bem os custos desse desvio. E não pode se dar ao luxo de repeti-los.

No plano internacional, o Brasil tem uma vocação histórica para a mediação e o diálogo — vocação que, nos últimos anos, foi ora negligenciada, ora instrumentalizada por agendas ideológicas que nos afastaram de nosso papel natural. Em 2026, com eleições no horizonte e um mundo em recomposição acelerada, o País precisa reassumir essa postura com clareza e convicção.

Neutralidade não significa indiferença. Significa recusar o alinhamento automático com qualquer bloco, preservar a autonomia estratégica e defender, com firmeza, os princípios que sempre distinguiram a política externa brasileira: a solução pacífica de controvérsias, o respeito à soberania dos povos, a defesa do multilateralismo e o compromisso com o desenvolvimento humano.

Num mundo em que potências se polarizam e pressionam os demais a escolher lados, a neutralidade ativa é, paradoxalmente, uma das posições mais difíceis e mais valiosas que um país pode ocupar. O Brasil tem o porte, a história e as relações para exercê-la com autoridade — desde que tenha a serenidade e a competência institucional para isso.

Às vésperas de um novo processo eleitoral, os brasileiros se deparam com uma escolha que vai além das candidaturas e dos partidos. Trata-se de escolher o tipo de país que queremos ser.

O que o momento exige não é um pendulum que oscila entre radicalismos de sinal trocado, mas um centro político robusto, capaz de incorporar o que há de legítimo nos anseios conservadores — segurança, família, ordem, responsabilidade fiscal, meritocracia — sem abrir mão dos valores que definem uma sociedade civilizada: o Estado de Direito, a proteção das minorias, a liberdade de imprensa, o respeito às diferenças.

Esse centro não é mediocridade nem falta de convicção. É, ao contrário, a mais exigente das posições políticas, porque requer inteligência para distinguir o essencial do acessório, coragem para resistir às pressões dos extremos e humildade para governar para todos — não apenas para a própria base.

Aristóteles, no século IV a.C., definiu a virtude como o ponto de equilíbrio entre dois vícios — a falta e o excesso. A coragem está entre a covardia e a temeridade. A generosidade, entre a avareza e o desperdício. O bom governo, diríamos hoje, está entre o imobilismo e o aventureirismo.

O Brasil de 2026 precisa dessa virtude. Precisa de líderes que entendam que a paz não é ausência de conflito, mas resultado de instituições fortes e de um pacto social renovado. Que a neutralidade internacional não é fraqueza, mas estratégia soberana. Que a moderação política não é fraqueza, mas maturidade democrática.

O mundo está em movimento. O Brasil precisa se posicionar — e o melhor posicionamento é aquele que nos permite ser relevantes para todos, aliados de nenhum bloco em detrimento de nossa soberania, e fiéis aos princípios que sempre nos distinguiram como nação.

Não é pouco. Mas nunca foi tão necessário.


André de Almeida é CEO e Founding Partner do Almeida Advogados, escritório full service com atuação em todo o Brasil, membro exclusivo brasileiro da Globalaw — uma das maiores alianças internacionais de escritórios de advocacia. Autor do livro “A Maior Ação do Mundo – a História da Class Action contra a Petrobras”. Foi Presidente da Federação Interamericana de Advogados (2011–2013).

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